segunda-feira, 10 de dezembro de 2018


CHEGADA A LONDRES! FINAL DA VIAGEM!

(INÍCIO DA POSTAGEM)
Em 17 de agosto, chegamos a London Gutervay, porto de Londres. Um ônibus nos esperava. Fizemos longo trajeto até o hotel, dando para conhecer essa famosa cidade ao anoitecer, com auxílio do guia francês Jean Pierre. Simpático, queria mostrar tudo.
Hospedados no Dorsett Hotel, bem equipado, central, de grande movimento, observamos prédios modernos, muitos escritórios, longe dos bairros residenciais e casas antigas.
Preocupou-nos um pouco como faríamos com o dinheiro pois só tínhamos euros. As casas de câmbio estavam fechadas. Final de semana. Para jantarmos, somente cartão, não gosto de usá-lo quando levo dinheiro. Fiquei preocupada, mas no dia seguinte, o guia levou-nos a um local, no centro, para fazermos a troca. Não aceitam euro ou dólar, em Londres. Somente libra.
O tempo não ajudou, frio e chuva; decepcionei-me um pouco com a paisagem inglesa que sonhei. Cidade cheia de turistas, imigrantes, nada que lembrasse o inglês autêntico dos livros e filmes de infância. Grande número de indianos, árabes, africanos, vestidos à caráter, modificam o aspecto da cidade antiga. Aquela Londres misteriosa, escondida na fumaça, com senhores de cartola e madames de vestidos chiques e chapéus. Carros antigos, coches, castelos, somente nos filmes históricos, óperas tipo My fair Lady ou romances de Jane Austin.
Grande movimento de ônibus, metrôs, carros, gente apressada nos horários de pico, povo que trabalha e se movimenta como em toda cidade moderna. Algumas ruas antigas, conservam beleza em suas residências. São as próximas aos palácios reais ou locais de governo, que misturam-se aos edifícios, quando observados num todo.
O trânsito merece comentários. Como as ruas são estreitas, parece que não seguem direito a faixa, cada carro virando onde quer. Comum ver um ônibus sair de rua congestionada, voltar e procurar outra. Ninguém reclama nem xinga. Uma coisa boa da cidade é a ausência de violência. Segundo o guia, cidade tranquila. Quando fomos para o aeroporto, longe, na volta ao Brasil, encontramos uma pequena ponte. Ao ultrapassá-la, o ônibus ficaria preso sob ela. Retrocede e procura outra rua, apesar de grande movimento. Aflitos com a hora, estranhamos a calma do motorista. Deve ser algum inglês remanescente. A maioria foi para o interior.
Ficamos em Londres três dias, sendo um reservado para turismo com guia. Andamos, conhecemos avenidas famosas, tomamos metrô, ônibus, fizemos compras em lojas famosas, repletas de turistas, ricamente vestidas em trajes típicos, muito morenas, bem maquiadas, com grandes sacolas. Chamou a atenção a beleza típica e os sapatos bordados. Ao sair, tomavam ricchás, hábito indiano que está invadindo Londres nesse verão.
Em nosso segundo dia, saímos de ônibus turismo com o engraçado guia Sérgio, brasileiro, eficiente, que proporcionou conhecimento e risadas. Comentou a história de cada local e principais monumentos. Fizemos paradas importantes como St Paul'S Cathedral, a Catedral de São Paulo, o Apóstolo; a famosa Tower of London, Palácio e Fortaleza Real de Sua Majestade da Torre de Londres; visita ao Palácio da Rainha, o Palácio de Buckingham, visto somente por fora e alguns parques, como Hyde Park, que ficaram para o dia seguinte.
Tivemos momentos engraçados quando minha amiga Dina precisou encontrar um prato de sobremesa com a imagem da rainha, após quebra de um igual, pelo neto, num aniversário no Brasil. Tentou achá-lo nas lojinhas da Torre e, guiadas por Sérgio, acabamos num restaurante, quando ele achou um prato enorme, cheio de frutas, oferecendo-o a ela. Espantadas, demos risadas e ele afirmou: "Não queriam um prato? Isto é um prato inglês."  Não entendeu ou quis fazer uma brincadeira. Saímos logo antes que viessem à nossa procura. (continua)

domingo, 2 de dezembro de 2018


TIÃO DE DEUS!

Era uma vez um menino, toda história começa assim... Era uma vez um menino que caminha só pela estrada. Maltrapilho, ar de cansaço e fome, grande tristeza no olhar. Não revela de onde vem nem o que aconteceu, mas estão lá sofrimento e exaustão.
Senta-se à beira do caminho e, entontecido pelo sol forte, abaixa a cabeça sonolenta. A sede começa a atacá-lo, quando percebe a secura do cantil. Adormece.
Permanece assim talvez horas; acorda assustado com o barulho irritante e animado de uma carroça que se aproxima. São saltimbancos, animadores de circo, que percorrem as vilas pobres do sertão. Param admirados ao ver o menino pequeno e sozinho na estrada deserta. Após perguntas sem respostas, compadecidos, levam-no com eles.
Dividem a pouca comida e bebida e com um pouco de trato, ficam sabendo que o nome do menino é Tião, sua mãe morreu ao nascer e foi criado pelos avós num pequeno sítio das bandas do sertão. A seca da região, os animais e a plantação minguaram e a pobreza acabou com a vida dos velhos e as terras que restaram. Sozinho, Tião resolveu pegar estrada, buscar abrigo em outras paragens.
Com o tempo, envolve-se com os novos amigos, participa do trabalho e das brincadeiras. Fica hábil nas apresentações do grupo, torna-se indispensável. A figura de uma criança engraçada, mesmo alegria disfarçada, atrai aquela gente simples e pobre das regiões visitadas, que sorrindo, feliz, o aplaude.
Costumam encenar histórias curtas, programadas pelo velho Antônio, que escolhe o coreto das praças ou pátio de igrejas, quando o pároco oferece. Arrecadam um dinheirinho e deixam uma contribuição; logo partem em outra direção.
Tião rápido se adapta, gosta desse trabalho e o coração aquieta. É tratado com carinho pelos saltimbancos, e a alegria volta aos poucos, nova esperança brota. E assim vai crescendo, amadurece, se aproxima das pessoas, cria novas amizades.
A preferida dele é a mulata Cigana, assim apelidada, porque costuma adivinhar o futuro na borra de café. Quando fica entristecido, cismado em algum canto, logo ela aparece sorrindo, querendo ler a sorte. Nunca soube se era verdade tudo de bom que ouvia, mas alegrava, sim, quem a ouvia.
Outro que gostava, quase um pai para ele, o pai que nunca teve, era o caboclo Paraíba, mistura de branco com índio, descendente de uma tribo, lá das margens do Xingu. Fazia malabarismo com arcos, flechas, muita habilidade com facas. Às vezes era seu auxiliar.  Sentiu medo no início, poderia ser atingido, mas quando o conheceu melhor, adquiriu confiança e admiração. Paraíba era bom mesmo com facas, esculpia nas horas vagas, pequenos objetos de madeira, as carrancas para a proa de barcos e totens de sua tribo. Queria ensiná-lo nessa profissão.
Com essa gente divertida, cheia de novidades, cresceu o menino Tião, até a mocidade quando um fato estranho aconteceu. Chegam a uma cidade que os recebe com festa. Toda iluminada, decorada com bolas e árvores, guirlandas coloridas às portas, época de Natal. O pároco local pede-lhes um presépio ao vivo. Seria encenado no pátio da igreja e teriam o povo como ouvinte.
Mestre Antônio fica empolgado, querendo ensaiar todos, preparar uma homenagem digna a essa figura querida. Escolhe entre seus atores, Tião, um rapaz bonito, um dos Reis Magos. Consulta uma Bíblia local, emprestada pelo padre Bento, porque desconheciam o relato verdadeiro. Não eram muito ligados em religião, ouvindo e vendo às vezes, alguma procissão.
Tião, curioso, fica logo preocupado, como decorar e fingir se desconhece o assunto? Começa a indagar sobre Jesus, como nasceu, quem era, como nasceu um Deus em simples estábulo. Pede à mulata Cigana que o leve até a igreja e fica muito espantado quando vê aquele menininho crescido e crucificado. E, ainda, acompanhado. Um ladrão de cada lado. Iria festejar o nascimento de um bandido escolhido e apedrejado? Sua avó rezava para ele, ouvia-a de vez em quando, mas nunca perguntou quem era esse Deus a quem recorria.
Cigana também pouco sabe e só fala que foi injustiçado, traído e condenado. Parece que só fez milagres, boas ações, salvou muita gente, causou temor e descrença em inimigos poderosos que temiam perder suas crenças e o poder adquirido. Sua morte estava prevista, para salvar os pecadores, seria exemplo a todos os homens, deixaria ensinamentos aos povos, que seriam seguidos até hoje.
Tião, agora já quase homem, começa a ficar confuso, não tira da cabeça a história de Jesus. Nascido em uma virgem, em lugar muito humilde, um homem tão importante, pregando e fazendo milagres, que morre injustamente, depois de muitas crueldades. Não consegue pensar noutra coisa; frequenta a igreja e o rosto sofrido mirava, pensa... O padre, solidário ao vê-lo, vai interrogá-lo, esclarece suas dúvidas, tenta consolá-lo. Mais uma alma, convertida ao sofrimento de Jesus. Mostra-lhe na Bíblia que o sacrifício era esperado. A morte na época era a crucificação, Jesus foi imolado, e após três dias, como prometera, ressuscitou.
" Ressuscitou!" Exclama Tião, sem saber o que era isso.
"Ressuscitou, sim" Responde o padre Bento, já empolgado com as perguntas de Tião. " Para os que creem nele, voltou e doutrinou seus apóstolos, deixando-lhes o Espírito Santo". "Poderiam continuar sua doutrina, espalhá-la ao mundo, falariam novas línguas, seriam entendidos por todos." "Fundaram o Cristianismo, que existe até hoje, lembrado  todos os anos na festa do Natal." Emocionado, Tião volta ao acampamento, estuda seu personagem e o representa com novo amor no coração. Desperta para Jesus e novo rumo para seu caminho.
A representação é muito aplaudida. A carroça se prepara para novas andanças. Despedem-se. Padre Bento espera à porta da igreja. Tião volta de repente. Jesus ganha mais um crente.

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